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O ar da noite.

Decidiu respirar o ar da noite.
Não aquele ar contaminado das sextas e sábados, em que o álcool se funde com tantos fumos de tantas coisas que se acaba sugado pela insanidade adentro, perdidos no meio de pessoas que não se conhece e agarrados a sons dos quais nem sequer se gosta.
Decidiu respirar aquele ar de cidade numa terça-feira à noite.
Cidade adormecida, mole, quase que apagada.
Saíu de casa e tirou trinta minutos para ela mesma. Andou sozinha: casaco grosso e chaves de casa no bolso.
Sem destino, a apreciar o que ainda não tinha conhecido mas que já muitas vezes tinha visto.
Trilhou uns quinhentos metros a passo vagaroso, respirando fundo de vez em quando, enquanto deixava o vento fresco fazer o seu trabalho de purificação.
- "Há falta de momentos assim." - pensou ela. "Daqueles momentos em que precisas de ti."
Ela não é inerte ao mundo forrado lá de fora, mas muitas vezes esquece-se que o ar fresco, a lua, as paredes das casas adormecidas e os muros da sua cidade, sabem que a vontade de se acompanhar a ela própria, é a melhor cura, num calmo e sereno passeio.
E hoje, ela decidiu respirar o ar da noite.

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