Decidiu respirar o ar da noite.Não aquele ar contaminado das sextas e sábados, em que o álcool se funde com tantos fumos de tantas coisas que se acaba sugado pela insanidade adentro, perdidos no meio de pessoas que não se conhece e agarrados a sons dos quais nem sequer se gosta.Decidiu respirar aquele ar de cidade numa terça-feira à noite.Cidade adormecida, mole, quase que apagada.Saíu de casa e tirou trinta minutos para ela mesma. Andou sozinha: casaco grosso e chaves de casa no bolso.Sem destino, a apreciar o que ainda não tinha conhecido mas que já muitas vezes tinha visto.Trilhou uns quinhentos metros a passo vagaroso, respirando fundo de vez em quando, enquanto deixava o vento fresco fazer o seu trabalho de purificação.- "Há falta de momentos assim." - pensou ela. "Daqueles momentos em que precisas de ti."Ela não é inerte ao mundo forrado lá de fora, mas muitas vezes esquece-se que o ar fresco, a lua, as paredes das casas adormecidas e os muros da sua cidade, sabem que a vontade de se acompanhar a ela própria, é a melhor cura, num calmo e sereno passeio.E hoje, ela decidiu respirar o ar da noite.
Do que é que te serve? És tanto ou mais, ou menos, que todos os outros. Pensas que já viveste demasiado, mas nem metade do que sentes corresponde a um quarto do que sabes. E ela é igual a ti: sempre dona da razão, sabichona em todos os momentos em que não te deixa voar e aterra-te os pés no chão. Talvez seja por isso que os vossos mundos combinam. Porque ela acredita que o teu lugar é ao pé do dela, e tu porque nem sequer teimas em dizer que não. São tão fortes, os dois. Ela é tão forte, contigo. E tu tão forte, com ela. Imagina o que seria se ambos se perdessem. Imagina o terrível fim que teria a vossa história se, num dia destes, algum de vocês entendesse que afinal o lugar certo não era aqui.... Do que é que te servia?
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