Estou constantemente a dizer, e com medo de me tornar repetitiva, torno a fazê-lo: as melhores coisas só nos acontecem quando menos estamos à espera.
Acredito piamente que esta realidade dá um enorme encanto à vida. Não se deixem enganar: não existe nenhum detetive a perseguir-nos atentamente, a ver quando desviamos o olhar, para poder dar ordem a um superior: "Agora! Atira-lhe com qualquer coisa boa que ela está distraída".
O facto é simples e todos nós o conhecemos. É quando baixamos a guarda, quando deixamos de elevar as nossas expectativas, quando nos permitimos a aceitar que nem tudo o que vem à rede é peixe.. É precisamente nessa altura que pescamos. Deixamos de andar cabisbaixos a pensar que nada na vida nos surpreenderá e passamos a erguer a cabeça e a apreciar cada momento. É imperativo trocar as desilusões pelas surpresas.
Tal e qual como quando fazia um teste de matemática: saía da sala com o Miguel com a sabedoria de que tinha corrido bem. Então eu perguntava-lhe: "Correu-te bem! Quanto achas que vais ter?"; e ele respondia-me muito rapidamente: "Fiz o teste para 19, mas vou contar com um 17", apesar de ambos sabermos que seria um dezanove, nunca nos iludíamos, e mesmo que tivéssemos dois valores abaixo, seria sempre bem-vindo.
A minha vida não se cansa de me pregar partidas! Como é que se recupera do fim dum relacionamento? Acreditava, muito honestamente, que iria estar vinte mil anos a chorar pelo Bruno e pela sua ausência. Ergui-me mais rapidamente do que esperava. Também sofri, não escondo. E às vezes escrevo isso em desabafos de café, quando pego numa caneta e me ponho a escrever num guardanapo «Será que o sofrimento faz esquecer? Ou será o sofrimento o próprio esquecimento?»
Guardo muitas boas memórias, mas foi quando me pré-dispus a esquecer que o sofrimento me fez sofrer, que deixei de chorar. Agora sinto, mais que nunca, que somos nós que nos colocamos nas situações em que nos encontramos. A mulher tem um poder imenso! Só a palavra, por si só, acarreta tantos significados: mulher - coragem, beleza, subtileza, força, paixão. E as mulheres sabem sempre, mesmo quando acham que não, qual o momento certo para se virarem do avesso. É preciso ser-se forte para fechar gavetas e controlar o impulso de nunca mais a abrir.
Foi quando fechei a porta do Bruno, a cerrar os punhos e a fechar os olhos, que permiti que a tua janela se abrisse. E abriste-a para mim como nunca esperei que o fizesses. Depois de uma amizade de dois anos, deixaste entrar toda a luz, todas as brisas e aquele cheirinho a maresia que eu tanto gosto. E com toda a paciência, esperaste. Esperaste que eu me curasse, e estiveste sempre lá, quando a minha ferida sangrava, pronto a desinfetá-la.
Por vezes o mais improvável acontece. E a vida, esta minha vida!, nunca se cansa de me pregar partidas...
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