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Mensagens

Sopro.

Falam-nos que a vida é um sopro. Que tudo é efémero. Mas ninguém nos fala sobre a sua intensidade. Ninguém nos diz se a vida é um sopro de duas velas ou de pós maratona.  Limitam-se a dizer-nos e a falar-nos da sua duração: curta, breve e passageira. Dou por mim a pensar se o meu sopro é forte o suficiente. Se valho a pena; se me vale a pena tudo o que neste sopro existe implicado.  A verdade é que nada é garantido, isso vocês já sabem. Num dia acordamos com os pulmões lavados e no outro mal subimos um vão de escadas.  Mesmo de noite, quando me deito e sou sugada pelos meus pensamentos e falta de lucidez, só peço que venha uma brisa fresca que me obrigue a inspirar e a ter forças para respirar de novo. Podemos acreditar que tudo o que acontece, acontece por um motivo e com uma razão. Mas nem sempre é fácil fazê-lo. E nessa alturas temos de soprar, calma e vagarosamente, como que a pedir à vida que nos ensine esta forma de aceitar as coisas. Nem sempre precisas de con...
Mensagens recentes

Amor

Há uma grande diferença entre  sofrer por amor e sofrer de amor .  Talvez não se verbalize muito essa diferença porque não é fácil explicar sentimentos.  Não sabemos quais as palavras certas a utilizar, porque na realidade não sabemos bem o que sentimos. Sofrer por amor é um acto de abdicação: renunciamos coisas que nos fariam felizes em prol dum amor que julgamos fazer-nos mais ainda. Denunciamos sentenças e gritamos que estamos certos de que o nosso lugar é ao lado de quem amamos. Sofremos por uma condição que impomos a nós próprios: somos felizes por amor; e quando não somos, sofremos por ele. Sofrer de amor é algo que, até há bem pouco tempo, não sabia sequer diferenciar.  Se procurarmos no dicionário a palavra "amor" encontramos, pelo menos, nove significados distintos: dedicação por quem se sente afeição; aquele que é amado; sentimento de atração; predisposição para fazer o bem a algo ou a alguém;... Sofrer disto tudo é bem pior do que sofrer p...

Eclipse.

A lua ganhou coragem para enfrentar os seus medos. A solidão consumia-a: um sentimento que a comia de dentro para fora. Não havia nenhum espetáculo que lhe enchesse a alma. Não havia estrelas suficientes que a fizessem sentir completa. A importância de ter de brilhar sozinha, à noite, era um peso que a acorrentava, cada vez mais, ao sonho de poder estar com ele. O sol - mais forte, mais nobre, mais imponente e mais grandioso que qualquer outro astro, planeta, satélite. Era um amor quase proibido. Ela não percebia... Mas ele sabia. Ela não percebia porque é que não podiam estar juntos. Mas ele sabia que, sempre que ela brilhava, era ele que lhe dava forças para isso. Ela não percebia porque é só à noite é que era sentida. Mas ele sabia que durante o dia também era vista, muitas mais vezes das que ela podia sequer imaginar. Ela não percebia porque é que tinham de estar sempre tão afastados. Mas ele sabia que, mais tarde ou mais cedo, acabariam por se alinhar. Ela, muitas vezes,...

O dia do pai.

Não há forma certa ou errada de nos expressarmos. O que sentimos é, pura e simplesmente, o que sentimos. Estivemos cerca de uma dezena de anos sem nos vermos. Os motivos não são relevantes agora, talvez sejamos demasiado parecidos na nossa teimosia. A verdade é que não há países demasiado grandes que consigam quebrar os laços que existem entre um pai e uma filha. Não vou dizer que tenho o melhor pai do mundo, não posso desvalorizar o que não conheço e, muito honestamente, nem sei em que bases é que se faz essa comparação. Mas sei que o sangue que corre no meu corpo tem origem no seu e serei, até ao meu último suspiro, uma Azevedo cheia de garra, não fosse eu filha de quem sou. A mãe tem uma grande parte de culpa na personalidade que hoje tenho. Mas o pai, mesmo longe, teve uma influência gigante na minha transformação. Muito maior do que eu consigo, sequer, tentar explicar. As presenças marcam, mas as ausências também. E depois de tantos anos, durante a viagem de carro em que ia ...

Imagina.

Do que é que te serve? És tanto ou mais, ou menos, que todos os outros. Pensas que já viveste demasiado, mas nem metade do que sentes corresponde a um quarto do que sabes. E ela é igual a ti: sempre dona da razão, sabichona em todos os momentos em que não te deixa voar e aterra-te os pés no chão. Talvez seja por isso que os vossos mundos combinam. Porque ela acredita que o teu lugar é ao pé do dela, e tu porque nem sequer teimas em dizer que não. São tão fortes, os dois. Ela é tão forte, contigo. E tu tão forte, com ela. Imagina o que seria se ambos se perdessem. Imagina o terrível fim que teria a vossa história se, num dia destes, algum de vocês entendesse que afinal o lugar certo não era aqui.... Do que é que te servia?

Mas que mania!

Mas que mania que ela tinha... Aquele ar de pedra dura não lhe servia de nada.  Todas aquelas paredes que ela ergueu para se abrigar dos invasores não lhe serviram de nada. Ela quebrava: e quebrava sempre um pouco mais quando os muros que a protegiam lhe caíam sobre os ombros. Muros fracos, paredes fracas, ombros fracos. Era isso que acontecia quando pensava que era feita de ferro: enferrujava quando menos esperava; enfraquecia quando menos queria. Até que ponto era imune ao veneno? Tentar ser pedra dura nunca lhe serviu de muito. Que mania que ela tinha em pensar que sabia tudo... ... quando afinal não sabia era nada!

O ar da noite.

Decidiu respirar o ar da noite. Não aquele ar contaminado das sextas e sábados, em que o álcool se funde com tantos fumos de tantas coisas que se acaba sugado pela insanidade adentro, perdidos no meio de pessoas que não se conhece e agarrados a sons dos quais nem sequer se gosta. Decidiu respirar aquele ar de cidade numa terça-feira à noite. Cidade adormecida, mole, quase que apagada. Saíu de casa e tirou trinta minutos para ela mesma. Andou sozinha: casaco grosso e chaves de casa no bolso. Sem destino, a apreciar o que ainda não tinha conhecido mas que já muitas vezes tinha visto. Trilhou uns quinhentos metros a passo vagaroso, respirando fundo de vez em quando, enquanto deixava o vento fresco fazer o seu trabalho de purificação. - "Há falta de momentos assim." - pensou ela. "Daqueles momentos em que precisas de ti." Ela não é inerte ao mundo forrado lá de fora, mas muitas vezes esquece-se que o ar fresco, a lua, as paredes das casas adormecidas e...